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A Nau Catrineta
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June 23, 2012 02:55 PM PDT
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Rimance popular.

Lá vem a nau Catrineta
Que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar.

Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar.

Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija
Que a não puderam tragar.

Deitaram sorte à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.

— «Sobe, sobe, marujinho,
Àquele mastro real,
Vê se vês terras de Espanha,
As praias de Portugal.»

— «Não vejo terras d'Espanha,
Nem praias de Portugal;
Vejo sete espadas nuas
Que estão para te matar.»

— «Acima, acima gajeiro,
Acima ao tope real!
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal.»

— «Alvíssaras, capitão,
Meu capitão general!
Já vejo terra de Espanha,
Areias de Portugal.

Mais enxergo três meninas
Debaixo de um laranjal:
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas
Está no meio a chorar.»

— «Todas três são minhas filhas,
Oh! quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar.»

— «A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar.»

— «Dar-te-ei tanto dinheiro,
Que o não possas contar.»

— «Não quero o vosso dinheiro,
Pois vos custou a ganhar.»

— «Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual.»

— «Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar.»

— «Dar-te-ei a nau Catrineta,
Para nela navegar.»

— «Não quero a nau Catrineta,
Que a não sei governar.»

— «Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?»

— «Capitão, quero a tua alma
Para comigo a levar"»

— «Renego de ti, demónio,
Que me estavas a atentar!
A minha alma é só de Deus,
O corpo dou eu ao mar.»

Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar;
E à noite a nau Catrineta
Estava em terra a varar.